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terça-feira, 19 de agosto de 2014

A revolução eminente

Sentada na esplanada, à porta de casa, olho à minha volta  e vejo como as mulheres ocuparam já o espaço público. Ao meu lado esquerdo, duas ansiãs acabam de jantar. Regaram a ceia com duas cervejas e têm mais de 70 anos, cada uma. As mulheres, claro. Tenho ao meu lado mais de 140 anos de vida :-)
À minha direita, uma mulher sozinha como eu, toma um sumo de laranja (desconheço se o está acompanhada ou não a laranja). tem os 40 anos já bem passados e confessa que hoje está cansada. Duas mesas à esquerda estão um rapaz e duas raparigas. Outras duas mesas para lá estão duas mulheres. Podem ser mãe e filha. A mais velha tem mais de 60 anos. Tem tomam cerveja. Todas e ele também.
A empregada de mesa trouxe-me o fino que lhe pedi e, oferta da casa, um pequeno pratinho de barro cheio de batata cozida, tomate, pimento e cebola crus, regados com muito azeite.
Lá dentro do café, atrás do balcão, está outra mulher. Na televisão, um jogo de futebol.
Tudo isto seria "tudo menos clássico" se eu estivesse num qualquer outro país. Aqui, em Espanha, parece tudo "do mais normal".
Eu, por meu lado, quero estar viva no dia em que as mulheres governem o mundo.
Quando passem da mesa do café à acção! E tudo se revolucione! E a vida seja bela.

domingo, 25 de novembro de 2012

Mateo


Ontem a Blanca veio com a família jantar cá. Eu estava contente! 
E com o Mateo (que tem 3 anos) foi uma espécie de amor à primeira vista.
Brincámos ao "onde está o Mateo? desapareceu! Ai não, está aqui!!!! Que susto!" e risos e mais risos.
Depois ele fez a sua própria pizza. depois pediu-me água. dei-lhe numa caneca com gatos. Olhou a caneca e pediu leite. Ri-me. Riu-se.
- Queres mesmo leite?
- Xim.

Olhei a mãe. Encolheu os ombros.

Passado um bocadinho:
- Quero leite.
- Está bem, eu dou-te leite. Queres quente ou frio?
- Quente.
- Olha, vai demorar um bocadinho mais do que o normal porque eu não tenho microondas.
- Está bem. Quero leite com chocolate!

Ele nunca tinha estado cá em casa. Nem podia saber se eu tinha ou não chocolate. Não tenho, obviamente, daquele chocolate que faz as delícias de pequenos (e muitos grandes), que tem um canguru brincalhão na embalagem.
Mas tenho outro! Tenho uma mistura que eu própria faço de 1/3 de chocolate em pó + 2/3 de cacau em pó + 1 pitada de canela.

Pus-me a aquecer o leite. Dei comida à Macua.
Quando dei por mim, o Mateo estava a dar à boca da Macua a sua comida, grãozinho por grãozinho. E ela delicada lambia-lhe a mão, esperava a comida seguinte. Quando ele demorava porque se distraía, ela ia comer directamente à taça (estava cheia de fome, diga-se), então ele acordava, punha a sua mãozita na taça juntamente com a boca dela, retirava mais uns grãozinhos e ela lá voltava a comer-lhe da mão.

O leite ficou quentinho, juntei-lhe a minha mistura, e dei-lhe a caneca dos gatos. Olhou para mim com uns olhos dos mais doces que tenho visto nos últimos tempos.
- Está bom?
- Está!
E foi sentar-se no puff amarelo, na sala.

- Mateo, já agradeceste à Maria? - perguntou-lhe a Blanca.
- Não precisa - disse eu baixinho. O facto de me ter olhado assim e ter dito que estava bom já é um enorme agradecimento!

Quando foi a despedida, o Mateo não queria ir. Por brincadeira perguntei:
- Queres cá ficar e amanhã levo-te na mota amarela a casa?
- Xim!
e acenava a cabeça não tirando os olhos de mim.
- Dormes na cama da Macua? - continuei brincando
- Xim!

E pronto, a partir daí é rápida e triste a história. 
Ele não podia ficar, começou a chorar, eu arrependi-me logo de ter perguntado (já estou farta de saber que não se brinca com as crianças, mas eu nunca pensei que ele, com 3 anos, dissesse que queria ficar), consegui ainda contar-lhe um segredo ao ouvido, para secar as lágrimas:
- Amanhã vou lanchar à tua casa e a mamã disse que queria fazer um bolo. Que bolo é que nós lhe vamos encomendar?
E ele, muito baixinho, disse-me:
- De chocolate!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Certamente - conversas conjugais em público

- Anda!... Então?
E, depois de levantar a voz, ela olhava para ele, lá atrás, ao fundo, ainda no início do corredor do supermercado, agarrado ao cesto das compras  e a colocar nele coisas retiradas das prateleiras. Cruzei-me com ela e olhei para o fundo do corredor à espera de ver um miúdo de 10 anos agarrado aos chocolates.
Não! Era um homem, alto, meio careca, quarenta anos recentes, vestido de escuro que olhou como um cachorro envergonhado em público. Sorri-lhe e encolhi os ombros pensando: deixe lá...

Um minuto depois, ele chocou com o cestinho na arca dos congelados. Bolas - murmurou!
E ela, olhando inquisidora para o cesto das compras:
- Pra que é isso? E não bastava um? Trazes logo dois. Pareces uma criança!

Eu procurava o tagliatelli sem ovo e até me desorientei também. Apeteceu-me colocar rapidamente o nariz e sair por aquele supermercado como a sombra daquela mulher até que ela se visse ao espelho. Que pena que só levava comigo o cartão multibanco, as chaves e o saco ecológico nas mãos :-(
Realmente ela tratava-o como nem a uma criança se deve tratar. Que triste fiquei.

Mais tarde, eu do lado de cá, o casal do lado de lá, ela agarra uma embalagem de miniaturas de bolos pré-congelados prontos a ir ao forno e com um sorriso diz-lhe:
- Olha, os que nós costumamos comer no café. Levamos?
E ele encolhe os ombros ao mesmo tempo que acena um sim com a cabeça. Ela coloca a embalagem no cesto das compras e convence-se que o desejo é dele. Certamente.

Se o amor é isto, se o casamento é isto, eu morreria solteira e no ódio. Certamente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Invariavelmente

Invariavelmente,
às seis da tarde, todos os dias, despedia-se da mulher e dos filhos dizendo:
- Até logo, meus amores. Vou namorar.
Iniciava o passeio descalço. Gostava de sentir as pequenas agulhas de que eram feitos os graozinhos de areia perdidos na calçada portuguesa daquela terra do sul.
Caminhava uma hora até chegar, por fim, sorrindo, à casa dela.
Olhavam-se
invariavelmente
nos olhos. Viam-se as almas e despiam-se naquele segundo em que demora um abraço a chegar a outro abraço e a respiração de dois se confunde.

Depois, ele sentava-se aos seus pés e a boca dela bailava no ar.
Ele adormecia,
invariavelmente,
dez minutos
naquele murmurar de folhas e flores que, soltas dos cabelos dela, enchia o vento de um perfume de miosótis e figos doces.

Todos os dias,
invariavelmente,
à meia-noite ele regressa a casa.
Beija a mulher e os filhos e sonha com uma árvore que veio do fim dos tempos só para o abraçar.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

o fim da legendagem...

pois é toda uma aventura...
1. Na Bolívia querem passar o meu filme. E eu também quero. Mas não o tenho cá...
2. Mana, manda-me o meu filme que te dei no Natal...
3. Menina, sabes? O filme que me deste não tem som... Não tem som??? Mas nunca disseste nada... Pois, olha, faço uma cópia do que deste ao pai e à mãe e mando-te. Ok, obrigada.
4. Ao mesmo tempo... Tiago... please... mandas-me meu filme? Querem a Corredor aqui na Bolívia, posso fazer cá uma sessão... Vamos a isso!
5. Os correios são mais lentos do que a minha vontade... mas chegam os filmes. O da mana é visualizado a primeira vez num Mac e... não tem som!!! Aghhhh.
6. Num Pc tem som. Ufa! A cópia da Corredor está com melhor qualidade. (mas o ficheiro tem o nome de outro filme... eheheh, só para baralhar!)
7. Tradução está feita e vai para a correcçao da mao amiga da Natália.
8. Premiere. Importar... Erro. Não dá. Nunca na vida o premiere importou um filme assim de um dvd... que vem todo encriptado, cracado, comprimido... e, enfim, como queria eu que desse agora??
9. Final Cut. O mesmo cenário. Busco ajuda. Maria, tens que transformar o ficheiro num avi ou mpg... E? como faço isso? Há uns programas mas vai perder muita qualidade... Ok, não ponho legendas ou então escrevo em papel e ponho-me lá, à frente, fazendo rodar as legendas manualmente (como desenhei há dias, aqui no blog).
10. Adiante, vou aos piratas comprar o tal do programa. (já disse que consigo adorar a pirataria na Bolívia?). Difícil... No tengo. No, no tengo... loja atrás de loja até que si, te hago una cópia ahorita! Buenísimo!
11. Instalar o programa no computador. Não há espaço no Pc. No Mac o programa nem sequer corre...
12. Help. Nayra, finalmente, na véspera da projecção diz-me que vá e me convertem o filme. Fui. Computador ocupado... ai, ui... ok, sigamos... Vejo todo o filme "Tudo sobre a minha mãe" do Almodovar. Que consolo! E, mais tarde, talvez e sim! Às 22h tenho na minha mão um dvd com o meu filme em avi, ou mpg... ala, para casa!
13. Premiere. Importar... e... e... não há espaço no disco. Ligo o disco externo e decido copiar as imagens da Alejandra temporariamente para aí. Diz o computador que esse processo vai demorar aproximadamente 1hora... Fumo um cigarro. Espero. E tenho tempo para escrever toda esta novela, omitindo muitos detalhes, acreditem... Hei-de continuar.
14. E tudo isto para quê?! O filme tem tao poucas palavras... Entende-se tão bem... Mas o que se há-de fazer? Eu sou assim...
(continua num próximo episódio)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Pensamentos com pinceladas de poesia

...
Amo a inteligência. A forma como uma pessoa comunica um pensamento. Seja com a poesia, a música, o cinema, a pintura, as conversas, a arte. Amo. Isso.
...
"- Leva-me a um sítio que tu gostes!"
Levei-te a um sítio que também eu não conhecia. Gosto de estar aí, no desconhecido.
...
Se eu estivesse cega,
não estaria longe
porque ao não poder ver
precisaria tocar.
Assim, respiro de longe
e aprendo a ver. Vejo melhor.
...
- "Agora não posso ligar..." escrevia. Quando levantei os olhos do telemóvel, para não ser atropelada, uma loja de cabines telefónicas ria-se para mim!
...
a maçã é o desejo de conhecer.
...

terça-feira, 4 de maio de 2010

"El lugar del cuerpo"

Sento-me no café, peço un expresso e leio. Devoro o livro lentamente, redescobrindo cada palavra. Vejo passar as frases como frames de um filme. Uma hora e meia depois, tendo escrito nos intervalos da leitura, saio para a rua. Entro na primeira livraria que encontro.
"Tem este livro?" Compro-o porque o quero ter e partilhar.
Volto ao mesmo café horas mais tarde, depois de uma inversao na marcha a pé que me levava a casa.
Nao, hoje nao vou cozinhar!
Sento-me à mesa retornando a leitura. Parece que vou terminá-lo hoje (e depois???).
Janto muito devagar uma pasta com nozes e cogumelos negros. Gosto de enrolar o esparguete lentamente na colher enquanto penso em nao sei o quê. O copo de vinho Concepción é sorvido também com a leveza do tempo lento e maduro. Fumo mais um cigarro. Estou sozinha num "Casablanca" cheio de gente e estou bem!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cinema boliviano

segunda-feira, entre chegada de Toro Toto e partida para La Paz.
Cementerio de los elefantes
Pois é,
é um dos melhores filmes do cinema boliviano. Sentada ao lado do realizador Tonchy Antezana, naquele lugar que é um lugar perfeito, em Cochabamba, a 300m de casa.
E se já haviamos falado de meu "Mais um dia à procura" passar cá, promovendo-se no final uma conversa com a presença da realizadora, agora surge a vontade de promover nos Açores um ciclo de cinema boliviano ou uma mostra dos filmes deste cineasta que já é um amigo.
Que sorte, que privilégio... que lindo eu ter ido morar ali, ao lado do CineArte 35mm...
Na segunda-feira passada... engoli em seco muita coisa no final do filme. Fiquei petrificada. Estava a 1h30 de entrar no autocarro rumo a El Alto, La Paz, local onde se passa a acçao do filme. Arrepiei-me. Tive medo, pela primeira vez, angustiei-me... O Tonchy deve ter sentido as minhas lágrimas escondidas e apenas me disse:
- Fuerte, no?
Acenei que sim com a cabeça...
- Pues, cuida te, allá!
E, já em La Paz, ontem, outro filme... ou seja, exactamente o outro lado do cementerio de os elefantes. Zona Sur. A mesma angústia, o mesmo arrepio, o mesmo medo... Saio do cinema à meia-noite. As ruas nao sao muito iluminadas, nao sei onde apanhar um truffi, os taxis vao seguramente enganar-me, caminho pela cidade colocando dezenas de rosas na visualizaçao do meu caminho e nos bordes da minha redoma. Ninguém me fala, ninguém me vê. Entro no Truffi. Subimos a El Alto. Sou muito pequena e magra entre os dois homens que vao adormecendo no banco de trás da viagem.
Chego, por fim, à cama! Paz.
O cinema boliviano está muito bem, mesmo!


domingo, 14 de março de 2010

vivo num restaurante

ainda nao tinha dito, pois nao?
Há coisas que para serem contadas precisam de tempo (ou outra coisa qualquer). Certo é que, independentemente de isso nao ser nada importante para a felicidade do mundo, ainda nao consegui contar aqui que, há uma semana, vivo num restaurante.

Hei-de ir contando.
- Mira, que mierda. La señora es vegetariana... (nao estao a falar de mim, descansem. Didier, o chef francês, refere-se a uma cliente que veio acompanhar um dos mais carismáticos mestres budistas da Bolívia.)
A Carolina aflita, nunca cozinhou comida vegetariana, o Didier absolutamente irado de desespero, incapaz de raciocinar com o pânico. Ofereço-me para cozinhar rapidamente uma massa com...
E eis que assim cozinhei no Andariegos restaurante e, dizem, foi um sucesso... para a senhora e o budista, claro! E feito em 15 minutos! Olé!

Quem diz que uma mulher nao sabe fazer tudo o que for preciso fazer?? Já se sabe.


o horizonte de alguém

Un de los musicos del grupo Kollamarca acerca se de mi mesa buscando algo o alguién. me mira. saluda sin dejar de buscar...
le pergunto:
- ha perdido algo?
- perdi mi horizonte.
sorrio, encolho os ombros quase pedindo desculpa por nao o poder ajudar. continua a sua busca. ali, parado, procurando com o olhar. encontra. vai, decidido, sorrindo. sigo-o com o meu.
Senta-se ao lado de uma mulher.

(Cochabamba, La esquina, 13.mar.10)